"Que
faz mais mal a humanidade, a religião ou os bancos?" Antônio Abujamra,
hoje do outro lado da vida, fazia esta pergunta a alguns de seus
entrevistados no seu "Provocações". É uma resposta difícil, mas acho que
pelo menos nos bancos nós podemos tirar nosso dinheiro de lá com mais
facilidade...

Os primeiros sopros de civilização surgiram no mundo, há milênios, foi quando o ser humano começou a sentir em si a presença do sagrado. Algo estava fora mas onipresente, era misterioso e inexplicável.
Surgia então, junto com a razão, a idéia de “DEUS” no mundo e cada povo tinha este sentimento comum, mas distinto.
Aparecem as primeiras religiões, que eram apenas um culto da família aos seus mortos. O “morto” era quem definia a religião da família. O morto era o deus a ser cultuado no círculo familiar.
Cada família tinha os seus “mortos” para cuidar, venerar, alimentar e lembrar. As famílias respeitavam-se mutuamente, pois cada qual sabia da importância do seu culto e o culto do outro.
Um homem esforçava-se em deixar um descendente vivo pois, depois de morto, ele precisaria receber o culto e o banquete fúnebre que o manteria vivo no outro mundo. Um homem sem descendentes estava fadado à morte depois de morrer.
O culto a um “morto em comum” definia o grau de parentesco entre as pessoas, não tinha nada a ver com genética ou herança de sangue.
E cada família tinha a sua religião, cada um respeitava o culto e os mortos do outro. O mundo vivia em paz neste ponto. Para entender melhor esta história, leia “A cidade antiga” de Fustel de Coulanges.
A humanidade caminhava tão bem, apesar das guerras por território e poder. A religião de cada um era respeitada por todos.
Eis que um dia surge a ideia do “Deus único”, o monoteísmo. No começo a ideia era boa, fazia sentido e visava a união pacífica da humanidade.
Mas os humanos nunca foram unânimes e em pouco tempo surgiram outros deuses-únicos, então cada grupo queria revindicar a unicidade do seu deus.
Foi esta fase da história que Nietzche abomina com veemência em seu livro “O anticristo”. Para ele foi neste momento que a humanidade jogou no lixo milênios de história, de aprendizado e de evolução e entrou em uma época de trevas e retrocesso.
"O único Deus que existe é aquele que eu creio, se você crê em outro, o errado é você". Com este pensamento surgiram os fundamentalistas.
Como toda unanimidade é burra, não custou a aparecer profetas por todos os cantos do mundo dizendo ser o seu povo o escolhido por Deus para herdar a terra, o paraíso, etc. e o outro, que crê em outro deus é amaldiçoado, é inimigo e deve ser exterminado.
Foi então que judeus, muçulmanos e cristãos se auto declararam inimigos e se acham no direito de matar por acreditarem em Deus.
As cruzadas, o holocausto judeu na segunda guerra, as infinitas guerras entre judeus, cristãos e muçulmanos é o resultado disso tudo. Nietzsche tinha razão!
Não vamos longe, aqui entre nós, considerados cristãos há muita discórdia, os dogmas mais separam do que unem, igrejas neo-pentecostais pregam a luta contra o inimigo, que por enquanto recebe o nome de “Diabo” mas pode muito bem mudar de nome e de cor, conforme interesses escusos de quem usa Deus para benefício próprio.
Quando vamos entender que o verdadeiro inimigo é o ódio, o orgulho, o egoísmo e a maldade que carregamos em nós e que nos leva a desejar a destruição do outro, que pensa diferente.



